
FOTO: Marcos Limonti
Espalhada por toda a África do Sul está uma infinidade de pequenas comunidades rurais, onde as grandes obras não existiram e a influência do evento esportivo que se finda neste domingo é menor ou inexistente. É como se a Copa tivesse acontecido em outra nação.
Uma pequena localidade em Eastern Cape, na rota entre a Cidade do Cabo e Port Elizabeth, ratifica essa assertiva. A apenas dez quilômetros de Swellendam, pacata cidade que é tida como o terceiro ponto mais antigo de colonização europeia da África do Sul, existe uma comunidade rural muito simples. O nome original, Buffelsjagrivier, é bem complicado de dizer para os que não dominam o africâner, língua mais falada nessa região.
Apesar da dificuldade na comunicação, já que falar inglês nesse local é raro, a reportagem teve contato com os moradores. Em uma pequena propriedade, um mini-cluster (aglomerado de casas) com sete residências, encontramos 50 moradores. Na frente da residência principal, que é de concreto e é a única ali com energia elétrica e televisão, havia um grupo de pessoas, todos negros, se aquecendo perto de uma fogueira. Eram membros da mesma família. Mais ao fundo, mais gente combatendo o frio com fogo e lenha, em frente às residências de zinco, que não contam com eletricidade. Um dos moradores preparava seu jantar, que era frango com purê de batata.
O endereço não tem uma vida econômica própria. A escola básica e o supermercado para completar a dispensa – já que eles não têm terra para cultivar nada – estão em Swellendam. É lá que fica a escola em que Garlan, 8, filho da sul-africana Anne, 35, desempregada, estuda e joga bola. Segundo a entrevistada, que ainda tem mais uma criança de 3 anos, aquele dia era aniversário do menino que acompanhou toda a Copa pela TV e apontava a Espanha como favorita ao título. E a festa de aniversário? “Não tenho dinheiro para hoje, talvez na semana que vem”, respondeu.
Demonstrando nenhum interesse pela Copa e até palpitando equivocadamente que o Brasil ia ganhar – o time foi eliminado nas quartas -, Anne sentenciou o que representou o Mundial. “Não vi a Copa. Nada mudou aqui, talvez em outros lugares”, complementou.
No dia seguinte, a reportagem voltou à mesma casa e encontrou um grupo de crianças jogando futebol em um gramado cercado por valetas de esgoto, enquanto as mães lavavam roupa e limpavam as casas.
O ÍDOLO
Nem Kaká, nem David Villa. Quem as crianças idolatravam na pelada era um sul-africano. “Tshabalala”, gritou uma criança antes de chutar ao gol, como se fosse narrar a jogada, enfatizando um dos jogadores dos Bafana. Toda vez que a bola, murcha, caía no esgoto, as crianças a pegavam com a mão. A nossa presença, bem vinda, chamou atenção, assim como o GPS dentro do carro, que para eles era tido com uma TV. Andando um pouco mais para dentro dessas comunidades e trafegando por estradas de terra, tudo que a reportagem constatou eram grandes fazendas com imensas plantações e descampados com criações de avestruzes, vacas e ovelhas.
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