Copa do Mundo não chega a todo o país

11 Jul

FOTO: Marcos Limonti

Por Rodolfo Tiengo
 
A Copa do Mundo 2010 acaba neste domingo, com o jogo entre Espanha e Holanda, no Soccer City, em Joanesburgo. Mas, em vez do clima de agitação das grandes cidades do Mundial da Fifa, tem um outro lado da África do Sul. Durante as andanças da equipe do GCN Comunicação pelo interior do país, houve contato com uma atmosfera bem distante do som das vuvuzelas, dos parques movimentados, dos estádios novos, dos comerciantes vendendo seus produtos para as multidões de torcedores.

Espalhada por toda a África do Sul está uma infinidade de pequenas comunidades rurais, onde as grandes obras não existiram e a influência do evento esportivo que se finda neste domingo é menor ou inexistente. É como se a Copa tivesse acontecido em outra nação.

Uma pequena localidade em Eastern Cape, na rota entre a Cidade do Cabo e Port Elizabeth, ratifica essa assertiva. A apenas dez quilômetros de Swellendam, pacata cidade que é tida como o terceiro ponto mais antigo de colonização europeia da África do Sul, existe uma comunidade rural muito simples. O nome original, Buffelsjagrivier, é bem complicado de dizer para os que não dominam o africâner, língua mais falada nessa região.

Apesar da dificuldade na comunicação, já que falar inglês nesse local é raro, a reportagem teve contato com os moradores. Em uma pequena propriedade, um mini-cluster (aglomerado de casas) com sete residências, encontramos 50 moradores. Na frente da residência principal, que é de concreto e é a única ali com energia elétrica e televisão, havia um grupo de pessoas, todos negros, se aquecendo perto de uma fogueira. Eram membros da mesma família. Mais ao fundo, mais gente combatendo o frio com fogo e lenha, em frente às residências de zinco, que não contam com eletricidade. Um dos moradores preparava seu jantar, que era frango com purê de batata.

O endereço não tem uma vida econômica própria. A escola básica e o supermercado para completar a dispensa – já que eles não têm terra para cultivar nada – estão em Swellendam. É lá que fica a escola em que Garlan, 8, filho da sul-africana Anne, 35, desempregada, estuda e joga bola. Segundo a entrevistada, que ainda tem mais uma criança de 3 anos, aquele dia era aniversário do menino que acompanhou toda a Copa pela TV e apontava a Espanha como favorita ao título. E a festa de aniversário? “Não tenho dinheiro para hoje, talvez na semana que vem”, respondeu.

Demonstrando nenhum interesse pela Copa e até palpitando equivocadamente que o Brasil ia ganhar – o time foi eliminado nas quartas -, Anne sentenciou o que representou o Mundial. “Não vi a Copa. Nada mudou aqui, talvez em outros lugares”, complementou.

No dia seguinte, a reportagem voltou à mesma casa e encontrou um grupo de crianças jogando futebol em um gramado cercado por valetas de esgoto, enquanto as mães lavavam roupa e limpavam as casas.

O ÍDOLO
Nem Kaká, nem David Villa. Quem as crianças idolatravam na pelada era um sul-africano. “Tshabalala”, gritou uma criança antes de chutar ao gol, como se fosse narrar a jogada, enfatizando um dos jogadores dos Bafana. Toda vez que a bola, murcha, caía no esgoto, as crianças a pegavam com a mão. A nossa presença, bem vinda, chamou atenção, assim como o GPS dentro do carro, que para eles era tido com uma TV. Andando um pouco mais para dentro dessas comunidades e trafegando por estradas de terra, tudo que a reportagem constatou eram grandes fazendas com imensas plantações e descampados com criações de avestruzes, vacas e ovelhas.

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