De onde a Copa passou longe

9 Jul

Moradores de comunidade rural não contam com eletricidade em suas casas FOTO: Marcos Limonti

Rodolfo Tiengo

Direto de Swellendam

Para quem ficou no eixo das grandes cidades do mundial da Fifa, o clima de Copa foi evidente. Torcedores andando e faixas penduradas por todos os lados, parques movimentados, asfalto e estádios novos, ambulantes aproveitando a alta rotatividade de gente para lucrar, multidões procurando acomodação em hoteis. Entretanto, só mesmo andando pelas cercanias mais improváveis aos turistas para avaliar o impacto da competição na África do Sul por um prisma mais amplo.

Saindo de lugares como Cidade do Cabo, Joanesburgo ou Durban, por exemplo, e rodando quilômetros pelas rodovias do país, encontram-se incontáveis e pequenas comunidades rurais, em que Copa do Mundo não vai além de um campeonato que foi transmitido na TV e não traz perspectiva alguma de mudança. Uma pequena localidade em Eastern Cape – na rota entre a Cidade do Cabo e Port Elizabeth – ratifica essa assertiva.

Quando chegamos em Buffelsjagrivier, havia gente preparando o jantar: frango com purê de batata FOTO: Marcos Limonti

A apenas dez quilômetros de Swellendam, pacata cidade que é tida como o terceiro ponto de colonização européia da África do Sul, existe uma comunidade rural cujo nome original, Buffelsjagrivier, é bem complicado de dizer para os que não dominam o africâner, língua mais falada nessa região. Chegamos por volta das 18h30, quando já estava escurecendo. Paramos numa pequena propriedade, um mini-cluster com sete casas, em que moram cerca de 50 pessoas.

Na frente da residência principal, que é de concreto e é a única ali dentro com energia elétrica e televisão, havia um grupo de pessoas, todos negros, se aquecendo perto de uma fogueira. Eram membros da mesma família; avó, filha e netos. Mais ao fundo, mais gente combatendo o frio com fogo e lenha, em frente às residências de zinco, estilo shacks, que não contam com eletricidade. Um dos moradores preparava seu jantar, que era frango com purê de batata.

FOTO: Marcos Limonti

Calmo e bastante humilde, o endereço não tem uma vida econômica própria. A escola básica e o supermercado para completar a dispensa estão em Swellendam. É ali que fica a escola em que o filho de 8 anos da sul-africana Anne, 35, desempregada, estuda e joga bola. Segundo a entrevistada, que ainda tem mais uma criança de colo, aquele dia era aniversário do menino que acompanhou a Copa pela TV e apontava a Espanha como a seleção favorita ao título. E a festa de aniversário? “Não tenho dinheiro para hoje, talvez na semana que vem”, respondeu.

Demonstrando nenhum interesse pela Copa e até palpitando equivocadamente que o Brasil ia ganhar – mesmo tendo sido eliminado nas quartas-de-final –, Anne sentenciou o que representou o mundial da Fifa, num contexto geral, para a comunidade, local que ela conhece bem, já que foi criada lá e nunca saiu de lá. “Não vi a Copa do Mundo. Nada mudou aqui, talvez em outros lugares”.

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